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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

'La Bohème' de Puccini


Enquanto a maior parte das pessoas esvaziava Lisboa para se dirigir às pitorescas localidades onde se idolatra o Carnaval, os monos e cabeçudos e as meninas semi-nuas, eu aproveitei para levar Mummy ao São Carlos. La Bohème, de Puccini, esperava por nós há mais de dois meses, desde o dia 25 de Dezembro, quando Mummy abriu deslumbrada o envelope verde de laço fuschia que lhe coloquei debaixo da almofada (ritual privado, há sempre o presente mistério, depois da troca geral).
Lá viemos as duas para a Baixa, passeando nas calmas por esse Chiado tranquilo que ela não via há anos, e que eu só vejo pejado de gente apressada, e aproveitando o nosso quality time fora das rotinas usuais. Parámos para beber um cafézito na Brasileira, e meia hora antes do espectáculo lá nos dirigimos para o Teatro. O largo já estava repleto de pessoas, e o átrio já tinha fila, embora muito ordeira e muito rápida a entrar. Ainda tive tempo de comprar o libretto (7€, gaita!!!) antes de estender os dois bilhetes para a plateia (obrigada, Teresa, tinhas razão!) e entrámos na sala.
Por incrível que pareça, eu nunca lá tinha entrado. E, confesso, estava à espera de uma coisa maior. Mas não fiquei desapontada. Como poderia? A sala é lindíssima, com um tecto maravilhoso e um camarote central absolutamente imponente. Ora vejam:


Do fosso saiam os primeiros sons de afinação dos instrumentos. A sala ia ficando mais cheia, num burburinho impaciente. Soaram os primeiros aplausos quando Julia Jones, a maestro, se levantou e cumprimentou o público. Depois, silêncio, luzes em decrescendo e subiu o pano.

A acção de ‘La Bohème’ passa-se em Paris, em 1830, no bairro boémio do Quartier Latin, onde poetas e pintores passavam os dias a tentar subsistir através da sua arte, e as noites a beber para esquecer as suas dificuldades. Assim era para o poeta Rodolfo (Alessandro Liberatore) e o seu amigo pintor, Marcello (Luis Ledesma) (ceús, este homem enche o palco! Já o fui googlar, que estou fascinada). Esta ópera retrata esse quotidiano, com cenas hilariantes como as da entrada de Musetta (Chelsey Schill), uma cantora temperamental que se enrabicha com Marcello, e depois acaba por tomar como ponto central o romance (turbulento e condenado) do poeta Rodolfo e da costureira Mimi (Ausrine Stundyte) e a sua evolução até ao acto final, onde Mimi volta para morrer nos braços de Rodolfo.

Dizer que gostei muito, é pouco. Adorei a encenação, as entradas e saídas de actores (actores sim, que também o são, e maravilhosos, por sinal), passando pela plateia, ou cantando num estrado mesmo junto à primeira fila. Eu, leiga que sou, não posso – é evidente - pronunciar-me sobre a qualidade e técnica vocal dos cantores, apesar de todos eles terem apreciações muito positivas no libretto, mas achei-os bons. Tive a primeira abordagem a esta ópera pelas vozes de Pavarotti e Mirella Freni, os monstros do belcanto que estamos a ouvir, pelo que tenho esse facto bem presente e não faço comparações. Mas gostei muito de todos. A sala veio literalmente abaixo, apesar da hesitação do público em perceber que tinha mesmo acabado. Eu sabia, porque estudei a lição em casa (obrigada Teresa, de novo), mas não quis ser eu a começar, pelo que esperei (im)pacientemente que se decidissem a começar a aplaudir. Pois que não perceberam que a criatura já não voltava à vida e que o pobre Rodolfo já estava a chorar há meia hora, a fazer tempo que se começasse a aplaudir? E que a maestro já tinha feito o sinal de encerramento à orquestra? Pois que foi preciso o rapaz baixar os braços e sorrir para o público, como quem diz 'epá, amigos, já acabou', para perceberem?
Mas esta coisa dos aplausos causa-me alguma perturbação...nunca estou muito certa do sítio certo para aplaudir, confesso. Tenho de estudar mais, que é como quem diz, tenho de ir ver mais coisas destas :)

Gostei muito de ‘La Bohème’. Mas gostei mais dos olhinhos brilhantes de Mummy, e do que me disse sobre o que estas duas horas lhe fizeram recordar: os nossos tempos em Paris, as saídas com Daddy, antes de eu nascer. Mummy nunca chora, mas vi lágrimas nos seus olhos. A nostalgia também faz parte, e que melhor ambiente para nos deixarmos levar pelas memórias?