'Querida Luísa,
Pedi à Rosinha, a menina do super, que escrevesse esta carta. Bem sabes que os meus olhos já nem isso me deixam fazer. E ela tem mais jeito…
Espero que o António esteja bem, e os teus filhos também. Eu cá vou indo, cada vez mais triste, com saudades da minha casa e do meu quintal. A laranjeira já deve ter florido, deve ser um cheirinho…Olha, vai lá, e apanha quantas laranjas quiseres. Não as deixes apodrecer! A Anita já me disse que tão cedo não vamos lá, sempre com os seus maus modos. Até parece que me tem raiva…Lembras-te? Dos cinco, ela sempre foi a mais seca. E agora, foi com ela que fiquei. Não me trata mal, dá-me comida, veste-me e dá-me os remédios, mas não tem uma palavra amiga. Sinto-me a mais aqui. E não gosto deste apartamento, sinto-me presa. E se vou à janela, é um barulho de carros e pessoas que até tenho medo.
Ai Luísa, que falta me faz o meu Manuel. Se não me tem morrido, ainda estava aí, junto a vós, a tratar das minhas coisinhas. Que ele tomava conta de mim e guiava-me nos meus dias sem luz, com ternura e sem me fazer sentir um fardo. Eu só queria voltar para a minha casinha.
Recebe um beijo e muitas saudades desta tua amiga,
Maria de Lurdes'
Este foi o texto que li na aula de escrita criativa de segunda feira. Banalíssimo, dirão, com razão. Pelo menos eu não estava nada à espera que a minha ‘Maria de Lurdes’ inventada à pressão, nos poucos minutos que temos para construir um texto com as directrizes do formador, fosse dar origem a um post. Não fossem duas colegas de curso me ‘repreenderem’ no fim da aula porque as comovi com a minha velhinha cega e triste, e eu provavelmente não mais pensaria na Maria de Lurdes e na sua pouco ternurenta filha, Anita.
Mas fiquei a pensar, na verdade. Quantas vezes não somos confrontados com a tristeza dos ‘velhos’, sem a compreender na totalidade? Poderemos algum dia assimilar a dor que deve sentir uma pessoa que se vê incapaz de tomar conta de si, e, ou é ‘empurrada’ para casa dos filhos, uma semana aqui, outra semana ali - sim que há filhos que fazem questão de contabilizar, ao minuto, o tempo passado a cuidar do progenitor para dividir o ‘fardo’ irmamente – ou é mandada para um lar, para ai definhar aos poucos? Já visitei alguns familiares de familiares que foram para lares e fiquei chocada(não vou fazer juizos de valor, mas é facto que por vezes não é possível, ou melhor, não se arranja facilmente outra solução, especialmente se os idosos estão doentes, ou acamados. É evidente que precisam de cuidados exclusivos e, nesse caso, um lar é, em teoria, melhor do que ficar sozinho em casa até o agregado voltar do trabalho). Chocada, não só pelas condições em que alguns lares funcionam (este era assim), com camas improvisadas em corredores, ou cozinhas, mas essencialmente pela sensação de depósito de pré cadaveres. Desculparão a crueza, mas o que vi foi isso mesmo: velhinhos deitados, ou sentados (os que ainda têm força), com o olhar no vazio, à espera do dia da mais longa viagem.
Impressiona-me também a forma como são tratados: como débeis mentais, ‘ai que o menino tem de comer a papa senão eu zango-me com o menino’. Talvez as assistentes vejam isto como uma demonstração de carinho, mas suponho que os velhinhos, cujo único problema será porventura estar um pouco esquecidos, ou tremer as mãos e não ter os reflexos de outrora, se sentirão, no seu íntimo, humilhados, postos de parte e inúteis. Em vez de estimulá-los, desmoralizam-nos. Fazem-nos baixar os braços. Morrer mais depressa. Isto revolta-me profundamente. A forma como a velhice é encarada, como uma coisa que envergonhe os mais novos, e mais válidos. Como se se sentissem ‘ameaçados’ por este vislumbrar de um possível desfecho para os seus, ainda vigorosos, anos de vida. Como se esconder a velhice, trancá-la a sete chaves, longe dos olhares do mundo, pudesse evitar o processo. Sinto um aperto no coração quando vejo como são tratados os velhinhos doentes. Como lixo. Sinto muito se choco alguém. É assim. Os lares, os hospitais, tudo igual. Os velhinhos são tontos inconsequentes, que só chateiam. Tive, infelizmente, de conhecer esta dura realidade. Há uns anos, o meu avô sofreu um AVC e esteve internado em S. José, numa cama numa sala vazia, porque só cabia mesmo a cama dele . Não sei se seria um vão de escada, mas era muito apertado. Recordo-me que ele estava entubado, mas consciente, e que chorou quando nos viu, mas não conseguia falar. Recordo-me de ter chorado horrores ao ver o desespero nos olhos dele, por não conseguir comunicar connosco (aliás, escrevo estas linhas com as lágrimas a escorrer), a solidão, a vontade de querer sair dali. Morreu poucos dias depois, sozinho no seu quartinho miserável, sem ninguém que lhe segurasse a mão, sem ninguém que lhe desejasse boa viagem e o acompanhasse naquele momento…
Há dois anos, perdi um tio muito querido, em circunstâncias parecidas. As enfermeiras do hospital da Guarda, habituadas como todo o pessoal médico a ser desprendido, já não se compadecem com os queixumes. Na sala onde o meu tio estava, outros cinco velhinhos estavam deitados, meio alheios, uns com visitas carinhosas, outros absolutamente sós, à espera apenas… o meu tio quase já não tinha forças para falar mas estava lúcido, e pedia por favor que lhe compusessem a fralda porque lhe estava muito apertada e a magoá-lo. Teremos nós a real dimensão do desespero que deve sentir um homem, em tempos forte e autoritário, que pede em surdina à sobrinha que lhe chame alguém para lhe ver a fralda que lhe está a magoar ‘as partes’, como ele dizia. Terão noção do sentimento de impotência que sente quem recebe tal pedido, e vai a correr chamar uma enfermeira, que lhe diz com arrogância ‘ agora é a mudança de turno, já lá vamos’. E que perante a insistência ‘ele está muito queixoso, doi-lhe muito’, responde, já virando costas,’ Eles dizem todos a mesma coisa, doi-lhes sempre qualquer coisa’. Fiquei tão chocada que nem tive reacção. A correcta seria, obviamente, partir-lhe a cara, para ver se lhe doia ou não, mas nem me lembrei disso. Foi uma auxiliar de limpeza que assistiu à conversa que me levou pelo braço dizendo ‘menina, deixe estar que eu trato disso, assim que acabar a visita eu vou ver o seu tio, prometo-lhe’. Se foi ou não, não sei. Não pude perguntar ao meu tio porque ele morreu nessa mesma noite.
Escrevo este post em homenagem aos velhinhos que perdi, e de quem tenho saudades imensas. Honremos os nossos idosos, apreciemo-los enquanto cá estão, e ao ritmo deles, embora com infinita paciência, façamos com que se sintam amados, ensinemos-lhes coisas, sentemo-nos a ouvir as histórias que nos contam, de tempos antigos que já nem conseguimos imaginar como sendo reais.
Há tanto para fazer em termos de melhoria da qualidade de vida dos nossos séniores…ainda acalento o sonho de um dia, quando tiver tempo disponível, dispender algumas horas a fazer trabalhos manuais com velhinhos, para os ocupar, inventar umas actividades leves, mas que os estimulem, para não os deixar definhar numa cama ou num cadeirão. Gostava de ver mais lares e hospitais preocupados com a saúde emocional dos velhinhos de que cuidam. Gostava de ver mais respeito para com os velhinhos. Gostava de ver mais velhinhos felizes e menos velhinhos conformados.
Gostava mesmo.
Pedi à Rosinha, a menina do super, que escrevesse esta carta. Bem sabes que os meus olhos já nem isso me deixam fazer. E ela tem mais jeito…
Espero que o António esteja bem, e os teus filhos também. Eu cá vou indo, cada vez mais triste, com saudades da minha casa e do meu quintal. A laranjeira já deve ter florido, deve ser um cheirinho…Olha, vai lá, e apanha quantas laranjas quiseres. Não as deixes apodrecer! A Anita já me disse que tão cedo não vamos lá, sempre com os seus maus modos. Até parece que me tem raiva…Lembras-te? Dos cinco, ela sempre foi a mais seca. E agora, foi com ela que fiquei. Não me trata mal, dá-me comida, veste-me e dá-me os remédios, mas não tem uma palavra amiga. Sinto-me a mais aqui. E não gosto deste apartamento, sinto-me presa. E se vou à janela, é um barulho de carros e pessoas que até tenho medo.
Ai Luísa, que falta me faz o meu Manuel. Se não me tem morrido, ainda estava aí, junto a vós, a tratar das minhas coisinhas. Que ele tomava conta de mim e guiava-me nos meus dias sem luz, com ternura e sem me fazer sentir um fardo. Eu só queria voltar para a minha casinha.
Recebe um beijo e muitas saudades desta tua amiga,
Maria de Lurdes'
Este foi o texto que li na aula de escrita criativa de segunda feira. Banalíssimo, dirão, com razão. Pelo menos eu não estava nada à espera que a minha ‘Maria de Lurdes’ inventada à pressão, nos poucos minutos que temos para construir um texto com as directrizes do formador, fosse dar origem a um post. Não fossem duas colegas de curso me ‘repreenderem’ no fim da aula porque as comovi com a minha velhinha cega e triste, e eu provavelmente não mais pensaria na Maria de Lurdes e na sua pouco ternurenta filha, Anita.
Mas fiquei a pensar, na verdade. Quantas vezes não somos confrontados com a tristeza dos ‘velhos’, sem a compreender na totalidade? Poderemos algum dia assimilar a dor que deve sentir uma pessoa que se vê incapaz de tomar conta de si, e, ou é ‘empurrada’ para casa dos filhos, uma semana aqui, outra semana ali - sim que há filhos que fazem questão de contabilizar, ao minuto, o tempo passado a cuidar do progenitor para dividir o ‘fardo’ irmamente – ou é mandada para um lar, para ai definhar aos poucos? Já visitei alguns familiares de familiares que foram para lares e fiquei chocada(não vou fazer juizos de valor, mas é facto que por vezes não é possível, ou melhor, não se arranja facilmente outra solução, especialmente se os idosos estão doentes, ou acamados. É evidente que precisam de cuidados exclusivos e, nesse caso, um lar é, em teoria, melhor do que ficar sozinho em casa até o agregado voltar do trabalho). Chocada, não só pelas condições em que alguns lares funcionam (este era assim), com camas improvisadas em corredores, ou cozinhas, mas essencialmente pela sensação de depósito de pré cadaveres. Desculparão a crueza, mas o que vi foi isso mesmo: velhinhos deitados, ou sentados (os que ainda têm força), com o olhar no vazio, à espera do dia da mais longa viagem.
Impressiona-me também a forma como são tratados: como débeis mentais, ‘ai que o menino tem de comer a papa senão eu zango-me com o menino’. Talvez as assistentes vejam isto como uma demonstração de carinho, mas suponho que os velhinhos, cujo único problema será porventura estar um pouco esquecidos, ou tremer as mãos e não ter os reflexos de outrora, se sentirão, no seu íntimo, humilhados, postos de parte e inúteis. Em vez de estimulá-los, desmoralizam-nos. Fazem-nos baixar os braços. Morrer mais depressa. Isto revolta-me profundamente. A forma como a velhice é encarada, como uma coisa que envergonhe os mais novos, e mais válidos. Como se se sentissem ‘ameaçados’ por este vislumbrar de um possível desfecho para os seus, ainda vigorosos, anos de vida. Como se esconder a velhice, trancá-la a sete chaves, longe dos olhares do mundo, pudesse evitar o processo. Sinto um aperto no coração quando vejo como são tratados os velhinhos doentes. Como lixo. Sinto muito se choco alguém. É assim. Os lares, os hospitais, tudo igual. Os velhinhos são tontos inconsequentes, que só chateiam. Tive, infelizmente, de conhecer esta dura realidade. Há uns anos, o meu avô sofreu um AVC e esteve internado em S. José, numa cama numa sala vazia, porque só cabia mesmo a cama dele . Não sei se seria um vão de escada, mas era muito apertado. Recordo-me que ele estava entubado, mas consciente, e que chorou quando nos viu, mas não conseguia falar. Recordo-me de ter chorado horrores ao ver o desespero nos olhos dele, por não conseguir comunicar connosco (aliás, escrevo estas linhas com as lágrimas a escorrer), a solidão, a vontade de querer sair dali. Morreu poucos dias depois, sozinho no seu quartinho miserável, sem ninguém que lhe segurasse a mão, sem ninguém que lhe desejasse boa viagem e o acompanhasse naquele momento…
Há dois anos, perdi um tio muito querido, em circunstâncias parecidas. As enfermeiras do hospital da Guarda, habituadas como todo o pessoal médico a ser desprendido, já não se compadecem com os queixumes. Na sala onde o meu tio estava, outros cinco velhinhos estavam deitados, meio alheios, uns com visitas carinhosas, outros absolutamente sós, à espera apenas… o meu tio quase já não tinha forças para falar mas estava lúcido, e pedia por favor que lhe compusessem a fralda porque lhe estava muito apertada e a magoá-lo. Teremos nós a real dimensão do desespero que deve sentir um homem, em tempos forte e autoritário, que pede em surdina à sobrinha que lhe chame alguém para lhe ver a fralda que lhe está a magoar ‘as partes’, como ele dizia. Terão noção do sentimento de impotência que sente quem recebe tal pedido, e vai a correr chamar uma enfermeira, que lhe diz com arrogância ‘ agora é a mudança de turno, já lá vamos’. E que perante a insistência ‘ele está muito queixoso, doi-lhe muito’, responde, já virando costas,’ Eles dizem todos a mesma coisa, doi-lhes sempre qualquer coisa’. Fiquei tão chocada que nem tive reacção. A correcta seria, obviamente, partir-lhe a cara, para ver se lhe doia ou não, mas nem me lembrei disso. Foi uma auxiliar de limpeza que assistiu à conversa que me levou pelo braço dizendo ‘menina, deixe estar que eu trato disso, assim que acabar a visita eu vou ver o seu tio, prometo-lhe’. Se foi ou não, não sei. Não pude perguntar ao meu tio porque ele morreu nessa mesma noite.
Escrevo este post em homenagem aos velhinhos que perdi, e de quem tenho saudades imensas. Honremos os nossos idosos, apreciemo-los enquanto cá estão, e ao ritmo deles, embora com infinita paciência, façamos com que se sintam amados, ensinemos-lhes coisas, sentemo-nos a ouvir as histórias que nos contam, de tempos antigos que já nem conseguimos imaginar como sendo reais.
Há tanto para fazer em termos de melhoria da qualidade de vida dos nossos séniores…ainda acalento o sonho de um dia, quando tiver tempo disponível, dispender algumas horas a fazer trabalhos manuais com velhinhos, para os ocupar, inventar umas actividades leves, mas que os estimulem, para não os deixar definhar numa cama ou num cadeirão. Gostava de ver mais lares e hospitais preocupados com a saúde emocional dos velhinhos de que cuidam. Gostava de ver mais respeito para com os velhinhos. Gostava de ver mais velhinhos felizes e menos velhinhos conformados.
Gostava mesmo.