Foi o meu primeiro dia no desterro para onde o accionista, cuja adequada adjectivação me absterei de reproduzir, por urbanidade e cortesia (e medo de represálias, vá), nos enviou.
Pese embora veja árvores muy belas da minha janela de um solarengo primeiro andar, e pese embora o relvado do edifício em frente seja bonito e aprazível, e não se ouvir senão o chilrear de um ocasional passarinho, não consigo perceber o entusiasmo dos meus colegas. Seguramente, se eu morasse em Algés ou Oeiras e pudesse ir almoçar a casa, aí talvez entendesse a grande vantagem de trabalhar em Carnaxide. Ah...Carnaxide, essa bela localidade. De certeza que muita gente foi - e é -, feliz em Carnaxide. Não me incluo no lote. Eu estive hoje em Carnaxide pela primeira vez e encontrei-me lá inacreditavelmente infeliz. Eu gosto de árvores, relva e pássaros, mas convenhamos que, tendo isto tudo mal ponho um pé fora de casa, afigura-se-me estúpido apresentarem-me esse tipo de argumentos para eu achar que sou a mulher mais afortunada do mundo por ter sido enviada para essa terra do demo. Especialmente quando isso me custa duas horas de trajecto. Quatro por dia no total. Convenhamos que há árvores mais perto, não? Não preciso apanhar três transportes colectivos para ver árvores, pois não? Hell, eu tenho árvores!!! Minhas. Em casa. Portanto, quanto aos argumentos botânicos se calhar guardamo-los para quem se impressione com isso.
Mas vá, nem tudo é mau. Tenho de ser justa, há coisas melhores que na Avenida da Liberdade. Senão vejamos, a casa de banho das meninas, por exemplo, já não fica dentro da sala da contabilidade. Não que os colegas que lá moravam andassem a monitorizar os nossos tempos de permanência ou a frequência das visitas, mas pronto, há um certo pudor em saber que a dois passos da porta está o M. No novo escritório, pelo contrário, a casinha fica longe dos gabinetes. Muito, muito longe. Ao fundo de um infindável corredor. Tão infindável que coloquei um lembrete para uns dez minutos antes de ficar mesmo aflita, para garantir que chego a tempo de não ter nenhum acidente pelo caminho. Estou também a reduzir o consumo de água, pelos mesmos motivos.
Outra vantagem de estar em Carnaxide é conhecer muitas pessoas. De muito perto. É de louvar o serviço de socialização que a Vimeca presta à população. Hoje, por exemplo, pude estudar de perto a dinâmica do membro da plebe ensonado e a suavidade da cadência que imprimiu ao seu reboludo corpo enquanto roncava interiormente. Digo interiormente porque não consegui ouvir nada por causa do barulho do motor do autocarro. Vimeca, se me lês, já era de renovar a frota.
Se há coisas piores do que trabalhar a duas horas de casa? Há, com toda a certeza. Digamos que o meu mau feitio é apenas da saturação à série de bocas parvas que tenho ouvido, entre as quais as dos tais colegas rejubilosos que se gabam de ir almoçar a casa. Ou da outra colega bem intencionada que me diz 'deixa lá, tens mais tempo para ler'. Eu por acaso até conheço outro verbo, que rima com ler, e pode ser igualmente lúdico, que podia aconselhar a quem me diz estas coisas. A minha religião não permite, mas quem quiser adivinhar está à vontade.

