Querida Sasha,
Passaram 366 dias mas é como se tivesse sido ontem. Quero recordar-te no teu melhor, em plena forma, e junto da água que adoravas. Adoro esta foto tua, este teu ar feliz. Lembro-me do dia em que a tirei, num dos nossos passeios solitários no Meco. Quando as coisas corriam mal, quando a depressão me assolava, pegava em ti e lá íamos nós para a praia. E, por muito triste que estivesse, com a tua generosa doidice conseguias sempre arrancar-me um sorriso. E voltava para casa a sentir-me muito melhor, mesmo com o carro cheio de areia e cheiro a cão molhado. Tenho saudades dos passeios pela praia. Tenho muitas saudades tuas. Tenho muita raiva do que aconteceu. Não merecias vencer um cancro para seres vencida por uma leptospirose. Não merecias um diagnóstico tardio, nem merecias ter lutado tanto em vão. Sabes que tentámos tudo, não sabes, Sasha? Nos últimos dois dias, tentámos tudo o que podia ser tentado. Eu também sei que tentáste e que foste uma valente. Aguentáste as intravenosas de antibiótico, a hemodiálise, o tubo gástrico... Aguentáste isso tudo, e eu acreditei sempre que ias conseguir voltar para casa. E foi um choque tão grande quando te fui visitar, cheia de esperança, e te vi ofegante na marquesa, com os olhinhos fixos, tão desesperada por ar que nem sei se me reconheceste. E quando o médico me mandou sair à pressa, eu soube. Eu soube que daí a nada ele vinha ter comigo e que ouviria as palavras que me disse, nem um minuto depois: "vamos perdê-la, vamos perdê-la...". E perdemos-te. E ainda hoje não percebo como raio isso aconteceu...
