
Como não sou grande artista de banda desenhada, se calhar não era pior contar a história...
Há pessoas estúpidas, que já nasceram assim e morrerão assim. Há outras pessoas que, não sendo estúpidas a tempo inteiro, vão treinando o seu quociente de anormalidade, para não correrem o risco de se tornarem seres perfeitos e serem assim ostracizados pelos menos maravilhosos. Enquadro-me, naturalmente, na segunda categoria!
Eis o porquê de ter achado uma boa ideia - e um bom treino para aumentar o meu quociente de estupidez - estar meia hora ajoelhada no chão de mosaico, em frente ao pc. Como sabem, não tem estado propriamente calor. Consequentemente, passados 10 minutos, já não havia muita circulação sanguínea que passasse do joelhito para baixo, e pensei que me ia correr mal a vida. Mas insisti (compreendem, o quociente...). Passados mais 10, comecei a tentar levantar-me, muito devagarinho, qual octogenário artrítico. Não resultou. Não me conseguia mexer. Firme e hirta por causa do frio, e a ranger os dentes de dor, vi que só podia fazer o que faço no ski quando não consigo parar: mandar-me para o chão. Foi o que fiz, aos ais, e literalmente a morrer de dores. Mas, meus amigos, doia-me a sério. Gemendo como uma condenada, tentei arrastar-me pelo chão, sempre aos 'ais', o que, provou ser uma atitude tremendamente estúpida, dado que Sasha MArgareth, que ressonava nos seus aposentos, ouviu e assomou-se à porta da sala, onde eu jazia em posição fetal, agarrada aos joelhos, e a achar que deve haver formas menos dolorosas de aumentar o quociente de estupidez, e tomando notas mentais para a próxima vez, caso sobrevivesse ao congelamento dos membros inferiores.
Ora a minha vida já estava suficientemente complicada sem um labrador de 38Kgs a correr para mim. Sasha Margareth tem uma noção bizarra de primeiros socorros...não lhe devem ter explicado que esmagar a vítima não contribui para a sua recuperação, e então sentou-se em cima de mim. Certamente na tentativa de me impedir de cair num coma sem volta, tentou manter-me alerta, colocando-me a sua patorra na cabeça. E, vendo que eu não conseguia dizer mais do que 'ai, sai, sai, sai, ai' tentou ajudar as minhas cordas vocais, lambendo-me o pescoço, a cabeça e a cara, e babando tudo num raio de três metros.
Quando consegui desprender os braços, esmagados sob a massa adiposa da minha formosa menina, agarrei-lhe a cabeçorra e tentei empurrá-la, mas ela deve ter achado que era o estertor da morte que me animava, e então, deitou-se em cima de mim.
Desisti e fiquei a ver os gatinhos a passarem por nós em inquiridora careta, cheirando o meu cabelo (que devia cheirar bem depois das lambidelas do monstro amarelo) e gozando com a situação. Sei que no seu íntimo felino estavam perdidos de riso, os trastes!
As tiras insipientes que logrei desenhar num momento de inspiração duvidosa não mostram o desfecho da minha desventura. Não me orgulho de dizer que estive uns cinco minutos com Sasha Margarida em cima, até sentir o purpúreo elixir da vida (vulgo sangue ) a voltar a circular no meu mortificado corpo. Só então consegui arrastar-me pelo chão, sempre com os joelhos dobrados, claro, até ao meu aquecedor de halogéneo, onde me colei, com a temperatura no máximo, sempre com Sasha Margareth com a cabeçorra no meu ombro, e vinte minutos depois consegui descongelar os joelhos. Depois, olhei para Sasha Margareth, abracei-lhe a cabeçorra e dei-lhe um beijo no meio dos olhos. É que ela é o máximo, mesmo! Estou até a considerar comprar um daqueles barris dos São Bernardo, enchê-lo de Jameson e atar-lhe ao pescoço. Assim, para a próxima vez que eu treinar para aumentar o meu quociente de estupidez e ela me vier salvar, sempre bebo um copo enquanto espero que ela saia de cima de mim!