
E quando pensava que num curso de letras nunca mais ia ter de pensar em fórmulas matemáticas, eis que Vladimir Propp me dá cabo dos planos. Este simpático folclorista russo dedicou grande parte da sua vida a estudar contos populares russos e a dissecá-los para, pasme-se!, reduzir a sua estrutura a fórmulas lógicas. Temo ter encontrado no seu 'Morfologia do Conto' o xeque mate da réstia de inocência que eu ainda tinha. Ainda só vou na página 52, mas já estou mesmo a ver que o tempo em que eu lia sem pensar 'era uma vez uma princesa muito formosa' já lá vai, e que quando a minha sobrinha me pedir para lhe contar uma história,eu lhe vá debitar a conversão lógica das funções na estrutura do conto. Algo como D1E2F5, por exemplo. Acredite-se ou não, isto até faz sentido mas arruinou para sempre o meu imaginário Obrigada, Vladimir!

E depois temos o nosso amigo Bruno Bettelheim e a sua "psicanálise do conto de fadas" , que é o outro livro que tenho para ler. Tem uma capa gira, um título apelativo e tal, e não resisti: fui espreitar uma página ao calhas. Na página 305 ,dedicada à explicação do conto de Branca de Neve, lê-se: " os contos de fadas preparam a criança para aceitar o que é, de outro modo, um acontecimento muito perturbador: o sangrar sexual, como na menstruação e, depois, nas relações sexuais, quando o hímen é rompido". I shit you not, está escrito. Isto a respeito das três gotas de sangue que a mãe de Branca de Neve deixa cair na neve ao picar-se na agulha com que bordava. Too much information, é o que vos digo. Há gente muito doente neste mundo. Como se as crianças fizessem associações destas. Nem eu, com esta já proveta idade, as fazia, nem de perto lá chegava. Confesso-me absolutamente chocada. E com medo do que poderei encontrar no conto do Capuchinho Vermelho, por exemplo. De repente o 'é para te comer melhor' não prenuncia nada de bom...