Nero Augusto, aka, a Sombra Maléfica e Nikki Aurora, agora
conhecida pel' a-que-não-partia-um-
prato-e-bem-nos-enganou, foram, na passada sexta feira, formalmente
acusados de vandalismo e profanação de solo sagrado. Pendem ainda sobre
os dois facínoras três acusações de homicídio em primeiro grau na forma tentada e
uma acusação de homicídio qualificado na forma tentada e conseguida. Os actos, não testemunhados mas deduzidos com
elevado grau de certeza, após aturada investigação na cena do crime, foram
perpetrados com requintes de malvadez, tendo resultado na destruição de parte
do jardim zen da proprietária, Safira Maria. Ainda em choque no momento desta
entrevista, Safira Maria foi incapaz de proferir declarações inteligíveis,
limitando-se este repórter a relatar que a proprietária se encontrava pálida e
combalida quando foi encontrada a tentar reanimar a, até agora, única fatalidade do pérfido ataque, o Escovilhão, carinhosamente apelidado de Árvore Pompom.
| Como seria a vítima mortal, se não tivesse selvaticamente assassinada |
Encontram-se ainda em estado crítico, o Abacateiro Joe e Fidelia, a
Camélia, cujos prognósticos continuavam reservados à hora do fecho desta reportagem.
Escaparam com ferimentos ligeiros, duas espécies de arbusto, cuja identidade não foi divulgada. Sobreviveram, incólumes, os malmequeres e três roseiras.
Para além da perda de vidas, há a lamentar avultados prejuízos materiais, sendo necessário substituir dois vasos partidos, terraplanar o terreno e recuperar ou substituir o equivalente a duas sacas de casca de pinheiro soterradas sob um camadão de terra, que os escroques espalharam no processo de escavação de um gigantesco buraco.
Os meliantes, que de imediato se entregaram sem oferecer resistência,
encontram-se neste momento com termo de identificação e residência, e saídas
limitadas. Foi-lhes suprimida a dose de festas diárias e não lhes é dirigida a
palavra desde o fatídico evento. Em declarações a este repórter, A-que- não- partia- um prato declarou estar arrependida e ter sido coagida por Sombra Maléfica, que alega não se recordar do acontecido. Estão em curso investigações para determinar se Sombra Maléfica poderá ter agido sob acção de psicotrópicos provenientes de uma flor de Datura, encontrada parcialmente mastigada no local. Interrogada sobre a existência de uma árvore com propriedades alucinógenas na sua propriedade, Safira Maria recusou prestar mais declarações, fechando-nos a porta com um lacónico 'vocês sabem lá o que é a minha vida!'
